Carol Castiel

A surpreendente herança judaica no coração do Atlântico

Negros com sangue judeu. Brancos africanos e judeus. Embora soe inusitado a alguns, estas identidades coexistem há séculos no continente africano. E em Cabo Verde, essa presença judaica começa agora a ganhar o merecido destaque. Parte desse reconhecimento recente deve-se ao trabalho da Cape Verde Jewish Heritage Project, associação fundada nos EUA pela jornalista Carol Castiel, que já recuperou dois antigos cemitérios judaicos nas ilhas do arquipélago.

Uma herança silenciosa, mas viva

Hoje, não se sabe quantos descendentes de judeus existem em Cabo Verde ou na diáspora. Muitos são católicos, espalhados pelo mundo, e têm apenas ecos vagos da origem judaica nas suas famílias. Vários entrevistados pela Rede Angola destacam que, em Cabo Verde, as diferenças religiosas ou culturais sempre tiveram pouca relevância. Talvez por isso, o legado judaico se tenha diluído, com famílias judaicas completamente integradas em poucas gerações.

Um legado que remonta ao século XIX

Os registos indicam que, após o fim da Inquisição em 1821, comerciantes judeus sefarditas — vindos sobretudo de Marrocos via Gibraltar — começaram a estabelecer-se em ilhas como Santo Antão, São Vicente e Boa Vista. A assinatura de um tratado comercial entre Portugal e o Reino Unido, em 1842, favoreceu esse movimento. Muitos destes imigrantes descendiam de judeus expulsos de Espanha em 1492.

Entre os símbolos desse passado está a poesia de Yehuda Halevi, um dos maiores nomes da literatura hebraica de Sefarad:
“Estou a fazer o caminho pelo coração do mar / Para o lugar onde os pés de Deus encontram descanso.”

Para muitos, Cabo Verde foi, literalmente, esse porto de abrigo.


Carol Castiel: uma americana com uma missão

 

Nos anos 1980, Carol Castiel conheceu cabo-verdianos enquanto trabalhava com bolsas de estudo para países lusófonos. Um dos primeiros chamava-se Levy, nome com raízes nas tribos judaicas. Descobriu depois outros apelidos como Benoliel, Benros e Anahory.

Ponta do Sol, Cabo Verde (DR)

Apesar de poucos conservarem a religião judaica, vestígios dessa identidade estavam presentes: histórias orais, nomes, inscrições hebraicas em cemitérios e até uma vila chamada “Sinagoga”. Com isso em mente, Carol fundou, duas décadas mais tarde, a Cape Verde Jewish Heritage Project, com a missão de preservar essa memória esquecida.

“Comove-me pensar que aqueles que estão sepultados ali pertencem ao meu povo. Eles merecem ser lembrados”, diz Carol, que a partir de Washington D.C. tem criado pontes entre Cabo Verde, Marrocos, Portugal e os EUA.


Memórias e identidade: histórias de vida

Fernanda Levy: entre Lisboa e as raízes esquecidas

Foi em Lisboa que Fernanda Levy, ainda jovem, ouviu pela primeira vez a pergunta: “És judia?”. O nome “Levy” nunca lhe parecera estranho em Cabo Verde. “Não sei”, respondeu. “Não tenhas medo, já não és perseguida”, ouviria de volta.

O seu pai, deputado no tempo colonial, lutava por melhorias para Cabo Verde. A mãe, galega, foi quem mais lhe falou sobre a origem judaica da família. Só depois da reforma, já com tempo e curiosidade renovada, Fernanda começou a procurar os seus antepassados — e encontrou no digital novas conexões e histórias.

“Não sei porque comecei esta busca. É uma coisa interior. Gostava de ir a Israel”, confessa.

Rafael Benoliel: arquitetura da memória

Rafael Benoliel de Carvalho

Do alto do pequeno cemitério judaico na Boa Vista, o mar é visível. Rafael Benoliel, arquiteto lisboeta, doou o projeto de restauro do espaço onde estão sepultados cinco dos seus familiares. A ligação à ilha vem do lado paterno — comerciantes estabelecidos em tempos coloniais.

A mãe de Rafael fugiu da Alemanha nazi para Cabo Verde, onde conheceu o pai. Embora sem prática religiosa em casa, Rafael sentiu na escola a urgência de aprender mais sobre a sua cultura. Hoje, honra as raízes, mesmo sem ser praticante. O irmão vive em Israel. Rafael visita a ilha sempre que pode — sente que preservar a memória é uma missão pessoal.

“Às vezes, parece que sou um objeto de museu. Mas contar esta história é importante”, diz.

Abrão Levy Lima: o pintor das raízes

Natural de Santo Antão, Abrão Levy Lima é artista plástico e genealogista amador. Recolhe dados sobre os judeus da sua ilha, mas lamenta a escassa bibliografia. Através da internet, contactou parentes distantes, incluindo um Levy no Chile.

Cemitério Judaico

Veio jovem para Portugal, ainda antes do 25 de Abril, mas conserva na memória uma Santo Antão de solidariedade e liberdade. Herdou o nome “Levy” da mãe. Cresceu cristão, mas encontrou na herança judaica um sentido de orgulho e responsabilidade.

“Saber de onde se vem ajuda a entender para onde se vai”, afirma.


A historiadora da memória

A historiadora Ângela Benoliel Coutinho, também descendente de judeus sefarditas, ficou surpreendida com o número de judeus identificados em arquivos do século XIX: mais de 100, um número expressivo para a população da época. Através da Cape Verde Jewish Heritage Project, lidera um projeto de pesquisa que cruza arquivos portugueses, cabo-verdianos, marroquinos e britânicos.

Família Wahnon

Descreve uma comunidade bem recebida, com tradições mantidas até à geração dos avós. Eram famílias pequenas, mas influentes: médicos, advogados, engenheiros. Alguns descendentes, como o ex-primeiro-ministro Carlos Veiga (da família Whanon), destacam-se ainda hoje.

Angela está agora a entrevistar descendentes em diversos países. Muitos não têm o apelido, mas conhecem a sua origem.
“São testemunhos vivos. O interesse crescente mostra que esta história está longe de terminar.”


Uma história em construção

A trajetória dos judeus em Cabo Verde é um capítulo pouco conhecido da diáspora sefardita. Mas é também uma prova do cosmopolitismo da história africana e da complexidade das identidades. No coração do Atlântico, entre salinas, memórias e novos começos, muitos descendentes começaram agora a procurar as suas raízes. E a redescobrir um pedaço de si próprios.